Ausência

em

As manhãs ainda têm cheiro de café e bolo de fubá. Ainda são a preguiça no sofá velho da sala. A silhueta do Cristo de madeira que perdura na parede enquanto nós sucumbimos. Os dias ainda são o quarto pequeno demais para a janela grande demais. A cama, o armário, o espelho e a cômoda, tudo tão escuro quanto a cortina de veludo pesada que embalava meu sono depois do almoço. As tardes ainda cheiram a alfazema e soam a futebol na televisão, em volume tão baixo que a distância ensinou-me a misturar realidade e sonho.

Os fins de semana ainda são suas palavras fazendo-me sorrir. São o seu cabelo fino da cor da neve e seus olhos cansados. As tardes ainda estão apoiadas na bengala de madeira lustrada e passam acompanhando seus passos lentos no assoalho arranhado. Os retratos antigos ainda desbotam pela casa em uma lembrança constante de que o tempo não escolhe, ou escolhe a todos.

Aqui é o agora. Aqui é o futuro. Aqui na soleira da porta deste apartamento vazio.

Não consigo entrar porque não quero experimentá-lo em sua ausência. Tenho medo de abrir as janelas e deixar escapar todas as lembranças.

-BAH

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2 comentários Adicione o seu

  1. Tão triste e tão bonito. Me fez lembrar saudosamente dos meus avós :’/

    Curtido por 1 pessoa

    1. BAH disse:

      Então consegui verdadeiramente expressar meus sentimentos, Isabella, porque o texto é uma homenagem para a minha avó. Gostei muito de saber que se identificou 🙂

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